O CÃO DE CASTRO LABOREIRO

 

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» COMPORTAMENTO

» FUNCIONALIDADE

» ORIGEM

» EVOLUÇÃO

 

 

Descrição

 

O Cão de Castro Laboreiro é um cão lupóide de tipo amastinado, sendo portanto mais ligeiro que as restantes raças de cães de gado. Apresenta uma estrutura corporal ágil com uma cabeça ligeira.

 

Os olhos são oblíquos em forma de amêndoa, de tamanho médio e expressão simples, castanho claros na pelagem clara e castanho escuros na pelagem mais escura. As orelhas são triangulares, arredondadas na ponta, pendentes e de inserção um pouco acima da média. Quando o cão está atento, a orelha volta-se para diante, ficando a face externa em posição anterior.

 

A cauda é larga e grossa, descendo até ao curvilhão, quando o animal está sossegado e em movimento toma a forma de alfange, ultrapassando a linha do dorso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O pêlo é curto, grosso e resistente, duro ao tacto, liso e abundante em todo o corpo. Não apresenta sub-pêlo. Em termos de coloração da pelagem, admitem-se os diversos tons de lobeiro nas suas tonalidades, claro, comum e escuro, sendo esta última a mais comum.

 

É frequentemente referida uma outra coloração, designada de “cor do monte”, que se diz ser a preferida pelos pastores. De acordo com a descrição, trata-se de uma pelagem composta, alobatada, pardusca, com cambiantes mais ou menos carregadas, no preto, tendo à mistura, no todo ou em parte, pêlos castanhos, cor de pinhão, ou avermelhados, cor de mogno.

 

As fêmeas são em geral mais pequenas que os machos, embora exista variação, dependendo das linhagens. O peso varia entre os 30 a 40 kg para os machos e os 25 a 35 kg para as fêmeas. A altura ao garrote definida para os machos varia entre os 58 e 64 cm e para as fêmeas entre os 55 e 61 cm (com tolerância de + 2 cm).

 

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Foz do Casal da Roliça

© Pedro Alarcão 2006

 

 

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PassoGL

© Erika Almeida 2008

 

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Urze & ErmeloGL

© Erika Almeida 2008

 

 

Comportamento

 

Guardião de rebanhos por tradição e excelência. É espantoso observá-lo em acção, dá nas vistas, e daí que não seja apenas um extraordinário guarda que defende e que o guarda com valentia, é tão bom cão de guarda como de companhia, pela sua total dedicação ao dono e grande docilidade e afectuoso para com as crianças, não têm problemas com outras raças, tem-nos no entanto com estranhos, onde o seu comportamento muda bruscamente, revelando o seu instinto de guarda inato.

 

Além de tudo isto, a sua peculiar forma de ladrar, que se inicia com um tom profundo, subindo em seguida em tons graves, e terminando em agudos prolongados, é a sua maneira de dar sinal de alarme, avisando-nos de que algo não está bem. Talvez a isso deva a falsa ideia de que se trata de um cão muito perigoso, trata-se apenas de um cão que se compromete com o seu dono e que têm noção disso.

 

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Nice

© CCCL 2002

Funcionalidade

 

O Cão de Castro Laboreiro é uma raça funcional, descrita como cão de guarda, de vigilância e protecção dos rebanhos. Trata-se efectivamente de um cão de gado, isto é, um cão que foi seleccionado ao longo dos anos para uma função específica - proteger os animais domésticos dos ataques dos predadores, como sejam o lobo (que ainda existe no seu solar) e o urso (já extinto). Como tal, apresenta um comportamento particular que o torna muito eficiente na sua função.

 

É também um bom cão de guarda e de companhia, pela sua total dedicação ao dono e grande docilidade, nomeadamente com as crianças. É considerado um cão agressivo com estranhos, mudando o seu comportamento em situações de perigo e na presença de estranhos, revelando a sua grande capacidade de protector.

 

Foi ainda utilizado pelas forças de segurança (fuzileiros), para manutenção da ordem.

 

 

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© CCCL

Origem

 

O Cão de Castro Laboreiro tem o nome do seu local de origem, uma freguesia perdida entre montanhas que se caracteriza por ter estado praticamente incomunicável com o exterior durante anos - falamos de Castro Laboreiro, no concelho de Melgaço.

 

Sendo um cão de gado, isto é, um cão que foi seleccionado anos para executar proteger os animais domésticos dos ataques dos predadores, terá tido uma origem comum às restantes raças nacionais de cães de gado. É considerada uma das raças caninas mais antigas da Península Ibérica.

 

Alguns autores afirmam que os cães de gado terão tido origem no afastado Dog do Tibete, utilizado pelos criadores de gado na Ásia, e que se expandiu por toda a Bacia do Mediterrâneo através das rotas de migração humanas e de transumância dos rebanhos para as regiões onde a criação de gado atingiu uma grande importância. A adaptação desses cães às condições ambientais específicas de cada região e as preferências morfológicas dos pastores locais terão resultado então na diferenciação das diferentes raças.

© CCCL

Evolução

 

Registos no LOP

 

Os primeiros exemplares da raça foram inscritos no Livro de Origens Português (LOP) em 1932, ou seja, 3 anos antes da redacção do estalão, em 1935. Os primeiros registos no Livro de Registo Inicial (RI) ocorreram em 1938, um anos após a criação deste Livro.

Uma análise do número de registos, desde 1932 a 2001, mostra que foram registados um total de 2.298 exemplares, dos quais 35% no RI e 63% no LOP, sendo 2% referente a animais registados no RI e depois transferidos para o LOP por excelente classificação em exposições caninas. Neste período o número de registos anual raramente excedeu os 30 exemplares até 1983, ano a partir do qual se verifica um aumento progressivo até 1996 em que se atingiu um total de 173 exemplares inscritos. A partir dessa data verifica-se uma redução abrupta do número de registos até 2001 (Gomes, 2003), ano em que se atinge novamente um valor muito elevado do número de inscrições, principalmente devido às inscrições no RI (N=136).

 

Após o ano de 2001 (ver tabela seguinte), assiste-se a uma diminuição gradual do número de registos até 2003, atingindo-se valores semelhantes aos do ano de 1999. Desde então, verifica-se um aumento progressivo do número de animais registados até 2006, atingindo-se um número total de 163 animais registados, aproximando-se do máximo verificado em 2001. Em 2007, observa-se uma ligeira descida, para 149 exemplares registados e uma estabilização até 2009. Em 2010 alcança-se um máximo histórico: 198 registos. Valor muito semelhante verifica-se no ano de 2011, com 192 animais registados.

 

Número de registos da raça Cão de Castro Laboreiro no

Livro de Origens Português, desde 1999 (Fonte CPC).

 

 

Cão de Castro Laboreiro

 

LOP

RI

Total

1999

59

38

97

2000

46

45

91

2001

36

136

172

2002

40

119

159

2003

34

62

96

2004

35

74

109

2005

44

109

153

2006

91

72

163

2007

91

58

149

2008

91

61

152

2009

118

37

155

2010

119

79

198

2011

109

93

192

 

 

Comparativamente às outras raças nacionais, no ano de 2000 a raça encontrava-se em 8º lugar na tabela do número de registos, tendo passado para 6º lugar em 2001, apenas à frente do Cão de Água Português, do Cão da Serra de Aires e dos Podengos Português Médio e Grande (CPC, 2001). Esta subida deveu-se ao grande aumento do número de exemplares registados no RI em 2001, como já referido.

 

Fazendo uma análise mais recente, podemos verificar que no ano de 2006 a raça ocupava o 7º lugar (CPC, 2007). Em 2007 desceu um lugar no ranking, relativamente ao ano anterior, para o 8º lugar, com um total de 149 registos, tendo ascendido novamente para a 7ª posição em 2008, com 152 exemplares registados. No entanto, comparando com os dados de 2001, não se registou uma diminuição acentuada, registando-se apenas menos 20 exemplares, contrariando a tendência muito negativa da maioria das restantes raças nacionais. Para essa diminuição, contribuiu a grande redução (55%) do número de cães registados no RI. No entanto, verificou-se um aumento muito significativo do número de registos no LOP, que quase triplicou desde 2001. Em 2010, apesar do valor histórico atingido, de cerca de 200 registos, a raça continuava a ocupar a 7ª posição (CPC, 2010), tendo subido para a 5ª em 2011, apesar de ter tido menos 7 registos que o ano anterior.

 

Número de registos das raças caninas nacionais no Livro de Origens Português em 2010,

com indicação da posição comparativamente a anos anteriores (Fonte: CPC).

 

Posição

Raça

LOP

RI

Total

2010

2009

2008

2007

2006

2001

2000

1

1

1

1

1

1

1

Cão da Serra da Estrela

527

59

586

2

5

4

3

3

2

2

Cão de Fila de S. Miguel

257

115

372

3

6

5

4

5

4

3

Perdigueiro Português

255

39

294

4

3

3

2

2

-

-

Cão de Gado Transmontano

107

137

244

5

2

6

6

6

5

5

Podengo Português Pequeno

210

7

217

6

9

9

7

8

7

6

Podengo Português Médio

167

37

204

7

8

7

8

7

6

8

Cão de Castro Laboreiro

119

79

198

8

4

2

5

4

3

4

Rafeiro do Alentejo

156

36

192

9

7

8

10

10

8

7

Cão de Água Português

155

21

176

10

10

12

11

9

-

-

Barbado da Terceira

33

73

106

11

12

10

12

12

10

10

Podengo Português Grande

8

42

50

12

11

11

9

11

9

9

Cão da Serra de Aires

40

7

47

 

 

No entanto, deve salientar-se que estes dados não traduzem o efectivo populacional da raça, em virtude da existência de um número indeterminado de animais não registados, embora potencialmente menor. Uma das principais linhas de actuação do CCCL, em particular desde 2001, tem sido o registo de exemplares de qualidade no RI, como se pode constatar pelo elevado número de animais inscritos desde 2001.

 

 

Variabilidade Genética

 

Estudos genéticos demonstram que existe um grau significativo de consanguinidade na raça (Gomes, 2003; Pires, 2006). Para esta situação poderão ter contribuído o reduzido número de exemplares e o desequilíbrio entre o número de indivíduos de cada sexo, que se verificou até 1981, altura em que a razão entre os sexos parece ter estabilizado.

 

Em consequência do isolamento da região do solar, verificou-se uma separação entre o núcleo de animais existentes no solar e o núcleo de animais pertencentes aos principais canicultores existentes fora do solar, principalmente na região da grande Lisboa. Como resultado estes dois núcleos mantiveram-se relativamente isolados em termos reprodutores, tendo por isso evoluído de forma diferencial. Os animais da região de Lisboa, em virtude de uma selecção mais atenta e também de algum grau de cruzamentos consanguíneos, tenderam a apresentar uma maior uniformidade. Este aumento da consanguinidade provocou, porém, alguns efeitos negativos ao nível da viabilidade individual e características reprodutivas. Por outro lado na região do solar, a ausência de controlo da reprodução (os cães andam geralmente soltos) e a crescente presença de cães de outras raças, provocaram um desvirtuamento da raça e a perda de tipicidade, visível até aos finais da década de 90 do século passado.

 

Assim, para que se possa efectuar uma correcta gestão da raça é importante que se efectuem esforços no sentido de realizar um censo, o mais exaustivo possível da raça a nível nacional, de forma a identificar linhagens distintas e proceder a cruzamentos seleccionados para aumentar a sua variabilidade genética, contrariando os efeitos genéticos que podem comprometer a sua viabilidade.

 

Um dos esforços do CCCL tem sido precisamente fomentar o cruzamento entre animais dos dois núcleos, de forma a aumentar a variabilidade genética da raça e melhorar a qualidade dos exemplares.

 

 

Características Morfológicas

 

Atendendo à evolução observada na raça nos últimos anos, a direcção do CCCL tem promovido esforços para adequar o estalão às características da população, tendo apoiado a realização de um estudo extenso de morfometria, em que foram medidos grande número de cães da raça (Cruz, 2006).

 

No que diz respeito à altura dos exemplares, foi proposta em Assembleia-Geral Extraordinária do Clube do Cão de Castro Laboreiro (10 Julho 1993) a alteração da altura nos machos para 58 a 64 cm (com tolerância de + 2 cm) e nas fêmeas para 55 a 61 cm (com tolerância de + 2 cm). Esta proposta de alteração ao estalão foi aprovada por unanimidade e posteriormente submetida à aprovação do Clube Português de Canicultura, onde depois de analisada pela sua Comissão Técnica, foi aprovada na Assembleia-Geral Extraordinária do Clube Português de Canicultura (24 Agosto 1993).

 

 

 

Referências Bibliográficas

CPC (2001). Relatório e Contas 2001.

CPC (2007). Relatório e Contas 2007.

CPC (2008). Relatório e Contas 2008.

CPC (2010). Relatório e Contas 2010.

Cruz, Carla (2006). As Raças Portuguesas de Cães de Gado e de Pastoreio. Aspectos Morfológicos e Comportamentais.  Dissertação de Mestrado em Produção Animal. Faculdade de Medicina Veterinária e Instituto Superior de Agronomia.

Gomes, Margarida (2003). Raças Caninas Autóctones Portuguesas. Contributo para o seu Estudo Genético e Demográfico. Dissertação de Licenciatura em Engenharia de Produção Animal. Escola Superior Agrária de Santarém, Instituto Politécnico de Santarém.

Pires, Ana Elisabete (2006). Phylogeny, Population Structure and Genetic Diversity of Dog Breeds in the Iberian Peninsula and North Africa. Dissertação de Doutoramento em Biologia (Biologia Molecular). Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.